José Bezerra é autor do livro Lampião - a Raposa das Caatingas.
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GLÓRIA – A CAPITAL DO SERTÃO
Lampião, Maria Bonita, Nossa Senhora da Glória
domingo, 6 de abril de 2014
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Dados geográficos e históricos de
Nossa Senhora da Glória,
antiga
Boca da Mata,
José Bezerra Lima Irmão
(Zé de
Pastora)
Autor de Lampião - a Raposa das CaatingasMembro da Academia de Cultura da Bahia e da
Academia Literária do Amplo Sertão Sergipano
Nasceu em
Alagadiço, município de Frei Paulo.
Criou-se na Barra das
Almas, município de Glória.
Foi aluno da
professora Cleudice Tavares.
Foi seminarista, no
tempo do padre José Amaral de Oliveira.
É membro da
Academia de Cultura da Bahia.
Geografia
Localização: Microrregião Sergipana do Sertão do São Francisco
Limites: Feira Nova, Graccho Cardoso, Gararu, Porto da Folha, Monte Alegre, Estado
da Bahia (Pedro Alexandre), Carira, Nossa Senhora Aparecida e São Miguel do Aleixo
População: cerca de 35.000 habitantes em 2012
História
Para os tropeiros e boiadeiros
que desciam do alto sertão do São Francisco em demanda do agreste e da rica
Cotinguiba, a antiga fazenda Boca da Mata, como o nome indica, era a porta de
entrada das matas da Quixaba, se a rota era por Enforcados (atual
Nossa Senhora das Dores), e das matas da Lagoa e do Bravo, se o destino era a zona de Itabaiana. Os viajantes ajustavam o passo de modo a só passar
pelas matas durante o dia. Em virtude disso, a Boca da Mata era local de
pernoite de tropeiros e boiadeiros conhecido em todo o sertão de Sergipe. Os
viajantes combinavam: “Vamos dormir na Boca da Mata”. O rancho era favorecido
pela existência de um tanque cavado num grotão no fundo da capela – o Tanque da
Baixa –, que não secava nunca. Antônio de Souza Correia e Francisco Teles
Trindade, vulgo Xixiu, prosperaram alugando seus pastos para o pernoite dos
comboios de burros e rebanhos vindos do norte que ali chegavam ao cair da
tarde, pois os viajantes, temendo atravessar a mata durante a noite, preferiam
esperar o dia seguinte para continuar a viagem. Foi Xixiu quem doou o terreno
para construção da primeira capela do lugar, ao lado de sua casa.
Embora aquelas terras fizessem
parte da sesmaria de dez léguas a partir da Serra da Tabanga, em Gararu, obtida
no início do século XVII por Tomé da Rocha Malheiros, seu povoamento somente
teve início a partir do século XVIII, com a instalação dos primeiros currais de
gado. Esse processo teve impulso com o surto da lavoura algodoeira, em
decorrência da Guerra da Secessão, nos Estados
Unidos, quando entrou em colapso a cultura do algodão naquele país, acarretando
a escassez do produto nos mercados mundiais. Na segunda década do século XX
havia em Boca da Mata duas usinas de beneficiamento de algodão, uma de Manoel
Bezerra Lemos (seu Duda) e outra de Gerino Tavares.[1]
[1] O fazendeiro Manoel
Bezerra Lemos (Duda) é o patriarca da família Bezerra Lemos, em Sergipe. Teve quatro
filhos: Antônio Bezerra Lemos (dono da fazenda Lajedo), Cícero Bezerra Lemos (o
filho mais ilustre de Nossa Senhora da Glória até hoje, destacando-se como
político em Glória e Boquim, tendo sido deputado estadual e federal, e por fim,
desgostoso com os rumos da política em Sergipe, mudou-se para o sul da Bahia),
José Bezerra Lemos (quarto prefeito de Glória, em cuja administração a cidade
foi visitada pelo governador Eronides de Carvalho, em 1939) e Filemon Bezerra
Lemos (foi o sétimo prefeito e o chefe político mais carismático da região na segunda
metade do século XX).
Gerino Tavares de
Lima, também fazendeiro, foi saxofonista da banda de música fundada em 1918
pelo maestro Braz, vindo a ser o segundo prefeito de Glória. É o pai de Antônio
Jolié de Andrade Lima (professor) e José Augusto de
Andrade Lima (médico veterinário, funcionário do Ministério da Agricultura).
Situada no divisor de águas das
bacias do Rio Capivara e do Rio Sergipe, Boca da Mata pertencera ao município
de Gararu, tendo-se emancipado em 1928 com a denominação de Nossa Senhora da
Glória.[2]
[2] Emancipou-se como vila e sede de município pela Lei nº1.014, de 26 de setembro de 1928, desmembrada do município de Gararu. Foi elevada à categoria de cidade pelo Decreto-lei nº 69, de 29 de março de 1938, do governador Eronides Ferreira de Carvalho, que a visitou em 1939, na administração do prefeito José Bezerra Lemos (Zezé Bezerra). Oficialmente, a denominação “Nossa Senhora da Glória” vem da Lei estadual nº 835, de 6 de fevereiro de 1922, quando, no governo de Maurício GracchoCardoso, foi criado o 2º Distrito de Paz de Gararu, com sede no povoado de Nossa Senhora da Glória. Porém o nome não pegou – para o povo, por muito tempo, continuou sendo Boca da Mata.
Ficava estrategicamente num entroncamento de seis
estradas – a de Pão de Açúcar, passando por Monte Alegre; a de Porto da Folha e
Gararu, via São Mateus; a de Feira Nova, que se bifurcava para Aquidabã e
Dores; a de Itabaiana, passando pelo Saco do Ribeiro; a da Cruz do Cavalcante,
passando pela Barra das Almas, Malhada dos Bois e Maniçoba; e a de Carira, pela
Baixa Limpa, que no Combuqueiro tinha a variante para a Serra Negra. Isso
contribuía para o desenvolvimento do comércio do arruado. A feira era aos
sábados, debaixo de um pé de figo na Praça Nova, ligada por um beco à Praça
Velha, onde ficava a igreja que acabava de ser construída no mesmo lugar da
antiga capela. Nesse beco, o velho Chiquinho Machado
tinha vários biongos alugados a alfaiates, sapateiros e barbeiros. Chiquinho
Machado morava na esquina do beco com a praça da igreja – sua casa ficava de um
lado e a padaria, do outro. Na outra ponta do beco, viradas para a praça da
feira, ficavam duas lojas de tecidos, uma de João Tavares e do outro lado a de
João Francisco, o intendente municipal.
* * *
* * *
Transcrevo, a seguir, o capítulo 96 do meu livro Lampião – a Raposa das Caatingas, em que
faço a descrição da passagem de Lampião pela antiga Boca da Mata. Faço essa transcrição com o propósito de assim contribuir para o
registro desse fato da história do cangaço, porém lembrando que é proibida a
sua reprodução integral ou parcial sem a autorização prévia do autor.
A passagem de Lampião pela Boca da Mata
No dia 19 de abril de 1929,
depois de assistir à missa em Poço Redondo, celebrada pelo padre Artur Passos,
vigário de Porto da Folha, Lampião soprou o apito, chamando os seus cabras,
despediu-se do padre e, imponente em sua montaria, acenou para o povo,
aglomerado na pracinha em frente à igreja. Os cangaceiros esporearam os cavalos,
fazendo cabriolas, mostrando destreza, e dispararam a galope pela estrada que
ia para a Serra Negra. O povo ficou olhando o bando se afastar levantando uma
nuvem de poeira.
Ao sair de Poço Redondo
pela estrada da Serra Negra, o astuto cangaceiro estava aplicando sua habitual
arte de despistamento, pois seu intento era sondar o interior de Sergipe, a fim de fazer
amizade com os coronéis e fazendeiros da região. Tencionava estabelecer
relações com os ricos coronéis da Cotinguiba e, se possível, com os Brito de Própria.
Em vez de seguir para a Serra
Negra, como dera a entender ao sair de Poço Redondo, mudou de rumo, pegando na
frente a estrada de Monte Alegre.
A passagem do bando por Monte Alegre foi discreta. O arraial ficava
fora da estrada, e os cangaceiros seguiram
direto, indo pernoitar na fazenda Lajeiro, de Antônio Bezerra, já depois do Rio
Capivara, na junção com o Riacho do Cachorro. No Lajeiro, houve troca das montarias, e na madrugada do dia seguinte
Lampião viajou montado na burra de estimação da esposa do fazendeiro, uma fina
senhora conhecida como Dona do Lajeiro. Destino: Boca da Mata.
* * *
No dia 20 de abril de 1929, como
de costume, o cego Badé foi um dos primeiros a chegar à feira. Ele ganhava uns
trocados batendo pandeiro e cantando umas trovas do poeta popular Vicente
Honório, vulgo Honório do Mandacaru, e outras que ele mesmo inventava, cheias
de lambanças, patacoadas,
valentias, mentiras exageradas. Seu ponto era debaixo de um pé de tamarindo, na frente
da casa de seu Souza, onde ficavam os vendedores de bodes, ovelhas e bacorins,
misturados com os vendedores de rede, fumo, queijos de coalho, farinha,
rapadura, bacalhau, jabá, frutas, arreios, perfumes, roupas, cestos, caçuás,
penicos, alguidares, moringas, potes e panelas de barro. Os matutos faziam uma
roda para escutar o cego. Eta sujeito sabido da peste! Até parece que sabia
ler!..
Por volta das 10 horas, o soldado
José Rodrigues viu uns cavaleiros armados galopando em direção ao quartel.
Traziam como guia um rapaz chamado Zé Grande, residente nas Piabas. O soldado
correu para chamar o sargento Alfredo, que estava deitado numa rede na sala do
quartel. O sargento tentou fugir, mas foi seguro pelo cangaceiro Ângelo Roque.
Lampião perguntou, desmontando da
burra:
– Quantos macaco o sinhô tem
aqui, sagento?
– Macaco? Qui macaco?
– Macaco... sordado... Quantos
sordado o sinhô tem?
– Só treis
sordados e eu – disse o sargento.
– Eu sou o Capitão Virgulino
Ferreira, Lampião. Me intregue as arma. Tranque o quarté e me dê a chave. Tem
gente presa?
– Tem não, Capitão – respondeu o
sargento, fechando a porta. E, voltando-se para os soldados: – Osoro, João, Zé Rudrigue, intregue as arma pro
Capitão.
O cangaceiro Virgínio recolheu
tudo – dois fuzis e três revólveres. Lampião botou a chave do quartel no bolso
e falou para Zé Grande:
– Me leve na casa do intendente.
– O intendente mora de junto da
prefeitura – disse Zé Grande –, mais agora ele tá na
loja dele...
– Me leve lá – ordenou Lampião.
E, alteando a voz: – Curisco, Arvoredo e Anjo Roque, fiquem aqui tumano conta
dos sordado e dos cavalo.
No rebuliço
da feira, o primeiro a notar aqueles homens estranhos foi o cego Badé, que
largou a cantoria no meio de um verso e sumiu.
João Francisco de Souza, o
intendente, estava em sua loja de tecidos, na praça da feira, conversando com o
irmão, Antônio Francisco, que era o delegado, quando viu chegar de supetão um
matuto que ele conhecia de vista chamado Zé Grande, acompanhado de uns cabras
armados, com roupas espalhafatosas e chapelões de couro cheios de enfeites.
Zé Grande disse:
– Seu João Francisco, esse home é
o capitão...
Lampião emendou:
– Capitão Virgulino Ferreira,
vurgo Lampião. Tou aqui de passage e priciso de um favô. Nun tenha sobrosso, purqui me falaro munto bem do sinhô e do seu
irmão. Durmi onte na fazenda Lajero, de seu Ontonho Bizerra.
João Francisco era um cidadão
respeitável, não era homem de andar ouvindo lorotas de qualquer um. Pensou em
reagir, mas desistiu. Quanto ao irmão, era um homem pacífico, com ares de
intelectual, e era delegado não por valentia mas porque impunha respeito devido
à sua condição de homem íntegro, conciliador e austero, nunca tendo sido
desrespeitado em toda a sua vida.[3]
[3] João Francisco de Souza foi o primeiro prefeito (intendente) de Nossa Senhora da Glória, logo após a sua emancipação política. Eleito para o período 1930-1934, só passou um ano no cargo, sendo destituído com a eclosão da Revolução de Outubro de 1930. Seu irmão, Antônio Francisco de Souza (Totonho de Simplício), é o pai de Manoel Adalberto de Sousa, vereador e fiscal de rendas, e do professor José Carlos de Sousa, orador da primeira turma de bacharelandos da Faculdade de Direito de Sergipe, tendo sido deputado estadual e secretário de Estado, exercendo cargos nos mais diversos setores da administração pública de Sergipe.
– Antônio Bezerra é meu compadre – disse João Francisco. – Em que posso servi-lo, Capitão? Eu sou o intendente desta vila. Este aqui é Totonho, o delegado, meu irmão – e pôs a mão no ombro de Antônio Francisco.
– Seu João, tou pricisano qui o sinhô me arranje
uns déis cavalo ou burro, qui inda hoje em quero ir pra Dores e os cavalo qui
eu tenho tão cansado. E se nun fô munto incômudo quiria qui o sinhô mandasse prepará cumida pra nóis, qui eu pago. Os animá eu mando trazê quano chegá im Dores.
O intendente ordenou:
– Zé Grande, vá lá em minha casa e diga que preparem comida para estes senhores. Depois veja aí com os feirantes dez burros bons. Diga aos donos que eu estou requisitando e me responsabilizo por eles. Quando arranjar tudo, bote as selas nos burros e leve os animais cansados para a minha malhada.
– Apois tá certo! – aprovou Lampião. Sempre caprichando nos bons modos, disse que queria tirar a barba. Explicou que, naquela vida que levava, precisava de dinheiro. Queria 5 contos de réis.
João Francisco encarregou o irmão de arrecadar o dinheiro. O próprio João Francisco levou Lampião à barbearia de Zé Besouro, um dos biongos alugados por Chiquinho Machado no beco entre as duas praças, seguindo na retaguarda os cangaceiros Luiz Pedro, Ezequiel, Virgínio, Mariano, Zé Fortaleza e Volta Seca.
João Francisco encarregou o irmão de arrecadar o dinheiro. O próprio João Francisco levou Lampião à barbearia de Zé Besouro, um dos biongos alugados por Chiquinho Machado no beco entre as duas praças, seguindo na retaguarda os cangaceiros Luiz Pedro, Ezequiel, Virgínio, Mariano, Zé Fortaleza e Volta Seca.
João Francisco entrou na barbearia de Zé Besouro e disse:
– Zé Besouro, veja aí uma navalha boa, que hoje você vai tirar a barba do Capitão Lampião. Não vá errar, viu?
Lampião sentou-se na cadeira giratória, com o fuzil atravessado no colo. Seu irmão Ezequiel ficou em pé na porta, um olho no barbeiro e outro na rua. Os outros cabras ficaram lá fora. Zé Bezouro, sentindo o peso da responsabialidade, respirou fundo para deter a tremedeira, porém as mãos não queriam colaborar, tremiam descontroladamente. Vendo a situação do pobre homem, Lampião tentou sossegá-lo:
– Tá cum medo, seu Bisouro? Quem divia tá cum medo era eu... De quem é o percoço?
– Tou cum medo não, seu Capitão... É qui eu sou assim mermo...
Por mais que caprichasse, o barbeiro terminou cortando uma espinha no rosto do cangaceiro, e começou a sair sangue. Zé Besouro, preocupado, gaguejou:
– Caa-pitão, tá merejano um sanguinho aqui...
Lampião levantou-se, olhou-se no espelho, enfiou cinco mil-réis na algibeira do barbeiro e comentou, saindo:
– Seu Bisouro, de hoje im vante, quano lhe dichere qui o sinhô é frouxo, mande qui cale a boca e diga qui neste lugá o sinhô foi o único home qui tirou sangue im Lampião!...
* * *
O povo, meio assombrado mas sem conter a curiosidade, queria ver de perto como era Lampião. Quando o cangaceiro, ao sair da barbearia, viu aquele ajuntamento, exclamou:
– Oxente! Vão fazê a feira de voceis, pessoá!
Zé Grande veio avisar que já arranjara os burros e que a comida estava pronta. De passagem pela feira, Lampião comprou uns queijos de coalho, deu esmolas, agradou as crianças jogando-lhes umas moedas, comprou remédios na farmácia de seu Amaro, sempre acenando para os curiosos, atento a tudo.
Na casa do intendente, almoço de primeira: jabá assada com farofa de cebola e arroz. Cachaça de sobra. Enquanto os cangaceiros comiam, o delegado chegou dizendo que só conseguira arrecadar 3 contos. Os que mais contribuíram foram Gerino Tavares, Totonho Alves, João Francisco e o próprio delegado. Lampião embolsou o dinheiro sem contar. Estava com pressa. Ao levantar-se da mesa, perguntou:
– Seu João, quanto foi o armoço?
– Que é isso, Capitão?! –respondeu João Francisco. – Assim o senhor me ofende... Na minha casa ninguém paga pra comer.
– Então munto obrigado. Seje meu amigo, qui eu sou seu amigo. Os burro eu devorvo quano chegá im Dores. –Apertou a mão do intendente e do delegado: – Até mais vê.
– Até mais ver, Capitão –responderam os dois, aliviados.
Lampião foi despedir-se dos soldados. Restituiu-lhes os fuzis – sem as balas. Devolveu também a chave do quartel ao sargento. Chamou Zé Grande:
– Ói aqui, Zé Grande, tome esses vinte min-reis, qui é pra você me fazê o favô de levá na fazenda Lajero os animá qui eu truve e intregá eles a seu Ontonho Bizerra.
Montou num burro e, acenando para os curiosos, levantou a voz, para que todos ouvissem:
– Tou ino pra Dores! Se os macaco do guverno aparicê pur aqui, diga a eles qui se quisé ir atrais de nóis botem as ispora, montem nas mãe deles e me sigam!
Lampião puxou na frente, passando de novo a praça da feira, entrou no beco de Chiquinho Machado e foi sair na outra praça, e do outro lado pegou o Beco de Gararu, entre a pensão de dona Nila e a bodega de seu irmão Abdias, que era a saída para Dores, porém na baixada, onde ficava a bodega de Antônio de Honório, tomou como guia um sujeito chamado Bororó e dobrou à direita pela estrada da Lagoa dos Bezerra – seu destino era o Saco do Ribeiro.
* * *
Por coincidência, logo mais chegou à Boca da Mata uma volante sob as ordens do sargento Nicolau, que ia fazer uma diligência no sertão. O intendente expôs a situação: Lampião acabava de sair naquele instante, ia para Dores, talvez não tivesse chegado ainda à Quixaba, dava para alcançá-los...
O sargento interrompeu:
– Seu João Francisco, se tá quereno qui nóis vá atrais deles, eu nun posso, nun tenho ordes. Tou aqui cum esses contratado pra cumpri ũa diligença, e é o qui vou fazê...
Zé Grande, tendo ouvido apenas o começo da conversa das autoridades, ficou agoniado. Tinha simpatizado com Lampião – um homem tão bom, tinha até apertado a sua mão e lhe deu vinte mil-réis... Decidiu ir preveni-lo dos propósitos do intendente. Montou no cavalo e saiu de fininho. Acostumado a rastejar bichos na caatinga, ao chegar à baixada notou que os forasteiros tinham pegado a estrada da Lagoa. Num galope só, foi alcançá-los na ladeira do Largo, já descendo para o Rio Sergipe.
Ao ouvir a história de Zé Grande, Lampião rosnou, enfurecido:
– Qué dizê intão qui o intendente morde e assopra cumo murcego, é? Isso é lá procidimento de home? Apois vorte e diga a seu João Francisco qui quano eu vortá na Boca da Mata vou durmi cum a muié dele!
* * *
Zé Grande pediu mil vezes a Bororó que não contasse a ninguém o seu encontro com Lampião na ladeira do Largo. Por precaução, quando o intendente resolveu constituir uma volante para proteger a vila, Zé Grande foi o primeiro a se oferecer como voluntário. João Francisco denominou a volante de “Batalhão Patriótico”. O chefe era seu irmão, Antônio Fransico de Souza. A volante era composta de 12 homens: Zé Grande, Manoel de Umbelina, Quinca, Luiz, Pedrinho, Januário, Domingos Padeiro, Joventino, Anísio, Totonho de Cândida, Manoel Alves e João Caranguejo.
Lampião nunca mais passou pela Boca da Mata. Esteve perto, em 1937, quando acampou na fazenda Beleza, de Manezinho Jacaré, nas imediações de Monte Alegre. Precisando de mantimentos, deu dinheiro a um matuto chamado Antônio Camarada (Antônio Pereira) para fazer umas compras na Boca da Mata. O delegado Antônio Francisco soube e mandou chamar o sujeito. “Pode ficar com o dinhero, Camarada, mas você não vai levar nada pra bandido! Se desobedecer eu lhe prendo!” Camarada não voltou para casa. Não conseguia dormir. Chegou a integrar o “Batalhão Patriótico”. Endoidou. Passou o resto da vida dizendo que Lampião vinha matá-lo. Não sossegou nem mesmo depois que disseram que tinham matado Lampião. Camarada trabalhou como coveiro em Glória até morrer. Morava numa casa abandonada, sem telhado, no Jegue Morto (atual Praça 15 de Novembro). Quando chovia, ia dormir na capela do cemitério.[4]
[4] Coordenadas geográficas: do quartel de polícia: 10º 13' 09.48" S, 37º 25' 14.16" W; barbearia de Zé Besouro: 10º 13' 06.60" S, 37º 25' 11.28" W; loja de João Francisco: 10º 13' 06.96" S, 37º 25' 12.00" W; residência de João Francisco: 10º 13' 09.10" S, 37º 25' 12.30" W. O Paulistano (Frei Paulo), de 28.4.1929, p. 1 e 2. Estácio de Lima, O Mundo Estranho dos Cangaceiros, Salvador: Editora Itapoã, 1965, p. 182. No rol dos cangaceiros que passaram por Boca da Mata, José Anderson Nascimento inclui Nevoeiro, Delicado e Quinta-Feira: Cangaceiros, Coiteiros e Volantes, São Paulo: Ícone Editora, 1998, p. 170/172. Seguramente, esses cangaceiros não faziam parte do bando naquela oportunidade. Entrevistados pelo autor em Nossa Senhora da Glória, no dia 8.12.2005:Cícero Alves dos Santos (Véio de Maximino), fundador do Museu do Sertão, Antônio Batista Menezes (Antônio de Primo), ex-tropeiro, que vendeu queijos de coalho a Lampião quando de sua passagem pela Boca da Mata, e Jurandy Feitosa Oliveira (Juranda), sobrinha da esposa do intendente João Francisco.
>>>>>>>>>>>>>>>>>
Sobre esses fatos, expostos aqui em apertada síntese, leia o capítulo 96 de Lampião – a Raposa das Caatingas:
Capa do livro
FAMÍLIAS FUNDADORAS
DA ANTIGA BOCA DA MATA
Souza - Tavares - Bezerra - Feitosa - Minã
Banheiro - Bompisá - Bindô
RELAÇÃO DOS PREFEITOS DE
NOSSA SENHORA DA GLÓRIA (ATÉ 2012)
João Francisco de Souza
Gerino Tavares de Lima
Manoel Messias Feitosa
José Bezerra Lemos (n. 18.9.1899; f. 21.10.1984)
Francisco Machado (Chiquinho Machado)
Filemon Bezerra Lemos
Ulisses Alves Oliveira
Francisco Machado (Chiquinho Machado)
José Ribeiro Aragão
Antônio Alves Feitosa
José Batista Sobrinho
José Elon de Oliveira
Sebastião Lopes da Silva
Antônio Alves Feitosa
Maria dos Santos Sanatna (Maria de Bastião)
Sérgio Oliveira da Silva (Sérgio de Bastião)
Ancelmo Correia
José Israel de Andrade (Zico)
Jairo Santana da Silva
Luana Michele Oliveira da Silva
Francisco Carlos Nogueira Nascimento (Chico do Correio)
João Francisco de Souza
Gerino Tavares de Lima
Manoel Messias Feitosa
José Bezerra Lemos (n. 18.9.1899; f. 21.10.1984)
Francisco Machado (Chiquinho Machado)
Filemon Bezerra Lemos
Ulisses Alves Oliveira
Francisco Machado (Chiquinho Machado)
José Ribeiro Aragão
Antônio Alves Feitosa
José Batista Sobrinho
José Elon de Oliveira
Sebastião Lopes da Silva
Antônio Alves Feitosa
Maria dos Santos Sanatna (Maria de Bastião)
Sérgio Oliveira da Silva (Sérgio de Bastião)
Ancelmo Correia
José Israel de Andrade (Zico)
Jairo Santana da Silva
Luana Michele Oliveira da Silva
Francisco Carlos Nogueira Nascimento (Chico do Correio)
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